Do mestre L. F. Veríssimo

O outro

Quatro na mesa. Todos decididamente mais pra lá do que pra cá. Tinham combinado que pediriam a última rodada de chopes, porque o dono já ameaçava virar as cadeiras sem esperar que eles as desocupassem. Um deles chama o garçom e pede.

– Mais cinco. Para terminar.

O garçom vai buscar os chopes e os quatro ficam em silêncio. Até que um deles pergunta:

– Por que cinco?

– Um pra cada um, ora.

– Mas nós somos quatro.

– Como, quatro?

– Quatro. Um, dois, três, quatro.

– Você esqueceu de contar você mesmo.

– Esqueci não. Olhe só. Eu, um. Você, dois. Três e quatro.

– Assim não dá. Cada um grita um número. Eu sou um.

– Dois.

– Três.

– Dezessete.

– Mas o que é isso? Que dezessete?

– Não era para escolher um número?

– Sua besta. De um a quatro, ou cinco, para saber quantos nós somos.

– Mas isso é fácil. É só contar. Um, dois, três, quatro.

– Você contou você mesmo?

– Contei. Ou não contei? Não me lembro mais.

O garçom traz os cinco chopes.

– Tenho uma ideia – diz um deles. – Cada um toma o seu chope. Se sobrar um, é porque nós somos quatro.

Todos bebem. Um dos chopes permanece intocado. Os quatro ficam em silêncio, olhando o copo cheio. Finalmente alguém diz:

– Viu? Nós somos quatro.

– Ou tem um quinto, mas ele não quer beber conosco…

Mais silêncio.

– Por que será?

Estão todos ainda olhando para o copo cheio, quietos e desconsolados, quando o dono vem virar as cadeiras.

2 Respostas

  1. hahahahaha, meleca e seus companheiros no bar

  2. eu sou o q gritou “dezessete!” hahahaha

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